Um gole pra São Benedito

janeiro 22, 2024


Que a ligação entre bebidas que têm o poder de alterar os sentidos e as religiões é antiga, todo mundo sabe. O costume de derramar um líquido no chão - antes de beber - em intenção de uma divindade é uma prática ritual chamada Libação e esse rolê foi criado na Roma e Grécia Antiga. A oferenda aos deuses pedia felicidade, harmonia e principalmente fartura de alimentos nos lares.

Como boa parte de outras coisas que se tornaram tradicionais na nossa cultura, esse costume chegou aqui pelas mãos dos colonizadores e o líquido adaptado para aquilo que se tinha a disposição: a aguardente de cana de açúcar, nossa querida cachaça. E como, no Brasil, o santo escolhido para oferecer a bebida foi São Benedito? O jornalista Edson Borges, autor de uma vasta pesquisa sobre a relação entre cachaça e as religiões, nos ajuda a entender: as fazendas e suas riquezas foram construídas em cima do trabalho escravizado dos negros. Não raro, a eles era oferecida a cachaça para combater o frio, estimular os pouco produtivos e curar os doentes (nota minha: aposto que já tinha uma boa garrafada por aí). Assim como a catequese da cachaça, os portugueses também ofereceram aos negros a catequese dos santos negros e elegeram o franciscano São Benedito - filho de escravos - como o principal deles. A hagiografia de São Benedito também demonstra que seus milagres o transformaram no santo a quem rezamos para a fartura nas mesas.


A partir daí, fazer uma ligação entre libação, cachaça e Benedito foi muito fácil. O santo, além de protetor e presença certa nas cozinhas, se transformou no padroeiro da cachaça que, além do catolicismo, também passou a ser usada em oferendas das religiões de matrizes africanas com a mesma finalidade: um pedido de proteção aos orixás, onde ganhou uma relação especial com Onilé, a grande mãe terra que gera e sustenta (e que recebe o primeiro gole da bebida) e com Ossain (sincretizado com São Benedito), encantador das folhas e orixá de cura e proteção. (olha aí meu palpite sobre as garrafadas...)


Tenho certeza que muitas pessoas pesquisaram e escreveram com profundidade sobre isso e vale a pena procurar pelo assunto, pois tudo que é movido pela fé e pela natureza encontra um caminho espiritual que vale a pena ser vivido.

Este post foi escrito porque esta autora entra em uma nova peregrinação de estudos e pede a São Benedito - seu santo padroeiro desde o nascimento - e a Ossain - que certamente me guiou nas alquimias - que me protejam no caminho. Quem vem derramar um gole de cachaça comigo? 



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