Da brisa ao quindim
janeiro 12, 2024“Uma multidão de brasileirismos, muitos deles de origem africana, que só faltam se desmanchar na boca da gente: bangüê, ioiô, efô, felô, quindim, xangô, dondon, dendê. Mas toda essa influência indireta do açúcar de adoçar maneiras, gestos, palavras, no sentido de adoçar a própria língua portuguesa, não nos deve fazer esquecer sua influência direta, que foi sobre a comida, sobre a cozinha, sobre as tradições portuguesas do bolo e de doce.” - Gilberto Freyre
Esclarecimentos ibéricos a parte, sabemos que esta e outras sobremesas com amêndoas viajaram para o Brasil com os colonizadores. Mas por aqui nós não tínhamos amêndoas...mas havia outro ingrediente em abundância, bem conhecido e maravilhosamente trabalhado pelas mãos das cozinheiras negras: o coco!
E como esse ingrediente que hoje é tão presente nas nossas receitas chegou até aqui? O coco tem origem asiática e contato dos portugueses com a Índia ao longo do processo de expansão marítima e outras regiões do oriente antes de chegarem ao continente americano, permitiu que os portugueses conhecessem o fruto e o colocassem em suas naus. Da Índia, os portugueses também levaram o coqueiro para a África, criando assim um elemento de conexão entre as três culturas. Encontrando clima tropical e condições favoráveis, seu cultivo se estendeu por diversas regiões da África e também no nordeste do Brasil, especialmente na Bahia, onde virou ingrediente fundamental em diversas receitas típicas e que ajudam a criar uma identidade gastronômica regional e nacional.
Essa é a mistura, a liga que constrói o Brasil e que nos permitiu absorver culturas diversas e reconstruí-las do nosso jeito.
Melhor que a receita é a origem africana do nome do doce: a palavra quindim provavelmente veio da palavra qumbe, pertencente à língua quimbundo e que tanto significa dengo e encanto como denomina um docinho feito de coco que é um alimento sagrado oferecido a Oxum. Olha aí o quindim, que docinho peregrino!
Para finalizar, deixo aqui a sugestão de uma leitura que lança um olhar sócio-histórico sobre o trabalho das cozinheiras negras no Brasil: o livro Um Pé na Cozinha de Taís de Sant'Anna Machado, adaptado de sua tese de doutorado, que nos leva a entender, a partir do microcosmo da cozinha, a real importância das mulheres negras na constituição social do Brasil.

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